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Rotas de tráfico de opiáceos da Ásia para a Europa

 

 

Rotas de tráfico de opiáceos da Ásia para a Europa

Introdução

Última atualização: 04.06.2015

Tradicionalmente, a heroína importada é disponibilizada na Europa sob duas formas, sendo a mais comum a heroína castanha (a sua forma química de base), que provém essencialmente do Afeganistão e de outros países do Sudoeste Asiático. Menos comum é a heroína branca (uma forma de sal), tradicionalmente originária do Sudeste Asiático, mas que agora também é produzida no Afeganistão e, provavelmente, nos países vizinhos, Irão e Paquistão. Esta região, às vezes designada como Crescente Dourado, domina a produção destinada ao mercado europeu.

Inseridas na série «Perspetivas sobre drogas» (POD), integrada no pacote relativo ao Relatório Europeu sobre Drogas, estas análises interativas, especificamente concebidas para a Web, fornecem informações aprofundadas sobre várias questões importantes.

1. Análise: rotas de tráfico de opiáceos da Ásia para a Europa

opium poppy

Tradicionalmente, a heroína importada é disponibilizada na Europa sob duas formas, sendo a mais comum a heroína castanha (a sua forma química de base), que provém essencialmente do Afeganistão e de outros países do Sudoeste Asiático. Menos comum é a heroína branca (uma forma de sal), tradicionalmente originária do Sudeste Asiático, mas que agora também é produzida no Afeganistão e, provavelmente, nos países vizinhos, Irão e Paquistão. Esta região, às vezes designada como Crescente Dourado, domina a produção destinada ao mercado europeu.

Embora recentemente se tenham observado sinais de decréscimo do consumo de heroína, nos países europeus que há mais tempo se debatem com problemas de consumo de heroína, também há indícios do aparecimento de uma maior diversidade de opiáceos no mercado. Verificou-se igualmente um forte aumento da produção de ópio no Afeganistão e alguns dados indicam uma diversificação da produção de heroína e morfina, bem como uma inovação nos métodos e rotas de tráfico. À luz destas mudanças, que estão a afetar os mercados europeus de opiáceos, a presente análise examina os dados mais recentes sobre as múltiplas formas como a heroína é agora traficada para a Europa.

O mercado europeu de heroína

Muitos países europeus têm um longo historial de consumo problemático de opiáceos. Desde a «epidemia» de heroína que afetou os países da Europa Ocidental nas décadas de 1970 e 1980 que a heroína é o opiáceo mais comum no mercado europeu de drogas ilícitas, e as pessoas com problemas de consumo de heroína predominam nos serviços de tratamento da toxicodependência.

No entanto, em 2010 e 2011, os mercados de droga de vários países passaram por uma situação de escassez de heroína, da qual poucos parecem ter conseguido recuperar totalmente. Paralelamente, o consumo de heroína na Europa parece ter diminuído nos últimos anos, sendo acompanhado, desde 2010, por um declínio considerável do número de apreensões de heroína e da quantidade apreendida. Os preços da heroína e as infrações relacionadas com a sua oferta na Europa também têm revelado tendências decrescentes, embora os dados mais recentes (2013) indiquem um aumento global da pureza desta droga e alguns países refiram a sua crescente disponibilidade.

Também há provas de consumo e apreensão de uma gama mais vasta de opiáceos. Em vários países, um número significativo de utentes em tratamento menciona outros opiáceos que não a heroína, designadamente a metadona, a buprenorfina ou o fentanil (EMCDDA, 2015a). Em 2013, as autoridades de aplicação da lei apreenderam, a par de preparações de ópio em bruto, como o «kompot» tradicionalmente consumido em algumas partes da Europa Oriental, muitos outros opiáceos, incluindo ópio e medicamentos como a morfina, a metadona, a buprenorfina, o fentanil e o tramadol. Além disso, desde o ano de 2005, foram notificados 14 novos opiáceos sintéticos ao mecanismo de alerta rápido da União Europeia (UE).

A evolução da produção de ópio no Afeganistão

A maior parte da heroína traficada para a Europa tem origem no Afeganistão, onde existem extensas culturas de papoilas-dormideiras. O cultivo destas plantas aumentou muito a partir da década de 1980, favorecido pelos conflitos que assolaram o país. As estimativas publicadas em 1994 pelo Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e a Criminalidade (UNODC) indicavam que cerca de um quarto do cultivo ilegal de papoilas a nível mundial tinha lugar no Afeganistão (71 410 hectares (ha) de um total de 272 500 ha). Apesar das flutuações anuais, a área cultivada tem crescido e atingiu níveis recorde; em 2014, calculava-se que já rondasse 224 000 ha, sendo, de longe, a maior do mundo. A produção de ópio no Afeganistão ascenderá a 6 400 toneladas, uma quantidade provavelmente correspondente a 80 % da produção mundial, segundo estimativas baseadas em dados não consolidados do UNODC (2014a, 2014b, 2014c) (Figura 1).

 

Fonte: UNODC (2007, 2008, 2012, 2014a 2014b, 2014c).

Nota: O EMCDDA calculou a produção mundial em 2014, e a quota do Afeganistão nessa produção, com base nas estimativas publicadas pelo UNODC (2014a, 2014b e 2014c).

Para produzir heroína a partir das papoilas-dormideiras, seca-se o látex extraído das cápsulas de sementes, que se transforma, assim, em ópio, que é depois diluído numa solução aquosa de hidróxido de cálcio (cal apagada), a que é acrescentado cloreto de amónio para regular a alcalinidade de modo a precipitar a base de morfina. Esta base de morfina, assim separada, é fervida com anidrido acético e carbonato de sódio, o que leva à separação da diacetilmorfina (heroína castanha), que pode ser vendida sob essa forma ou ainda sujeita a refinação para obter o sal de cloridrato (heroína branca). Aparentemente, no passado, a maior parte do ópio produzido no Afeganistão era transformado em heroína e enviado para a Europa, mas agora a produção de morfina para exportação parece estar a aumentar no Crescente Dourado (ver «4. Afeganistão, Paquistão e Irão»).

Como a heroína chega à Europa: as três rotas principais

Historicamente, a maior parte da heroína traficada a partir do Afeganistão chegava à Europa por via terrestre, através da que viria a ficar conhecida por rota dos Balcãs. Atualmente, apesar de esta continuar, provavelmente, a ser a principal rota de tráfico de heroína para a União Europeia, há indícios de uma diversificação das rotas e dos modos de transporte utilizados.

1. A rota dos Balcãs tradicional

Uma rota que liga o Afeganistão ao Irão e depois atravessa a Turquia constitui a via terrestre mais curta e direta para chegar aos mercados de consumo europeus. Esta rota é usada para traficar heroína para a UE desde a década de 1980, ou mesmo antes, e está bem consolidada. A Turquia é crucial para a rota dos Balcãs, devido às suas extensas ligações de comércio e transporte com a Ásia, o Médio Oriente e a Europa. Segundo a Europol, Istambul é um local estratégico para os grupos da criminalidade organizada, que nela combinam os transportes de heroína com «facilitadores» turcos e armazenam a droga, antes de esta ser transportada para a UE. A heroína pode sair da Turquia de múltiplas formas seja por via terrestre ou marítima. Deste país, partem três ramificações da rota dos Balcãs com destino à Europa Ocidental:

  • A ramificação meridional, que passa pela Grécia, a Albânia e a Itália, e usa predominantemente a via marítima (ferry-boats).
  • A ramificação central, que atravessa a Bulgária, a Antiga República Jugoslava da Macedónia, a Sérvia, o Montenegro, a Bósnia-Herzegovina, a Croácia e a Eslovénia, rumo à Itália ou à Áustria, sobretudo por via terrestre.
  • A ramificação setentrional estende-se da Bulgária e da Roménia até à Hungria, Áustria, República Checa, Polónia ou Alemanha, principalmente por via terrestre.

Também é traficada alguma heroína da Turquia para a Europa por via aérea: uma análise de 120 casos de tráfico de heroína para a Europa por via aérea revelou que a Turquia era o país de origem mais referido, seguido do Paquistão e do Quénia (UNODC, 2014a).

A Turquia é, desde 2003, o país que notifica maiores apreensões anuais de heroína ao EMCDDA, tendo atingido um pico de 16 toneladas em 2009. Em 2013, a Turquia apreendeu mais do triplo da heroína apreendida em toda a UE, quando em 2001 apenas tinha apreendido um terço da quantidade apreendida na União. A dimensão de cada remessa de heroína enviada pela rota dos Balcãs parece ter aumentado nos últimos anos; as grandes apreensões isoladas aumentaram de algumas dezenas de quilogramas para mais de 100 kg na atualidade. Desde 2012 que também se verificam apreensões recorde de heroína noutros países situados na rota dos Balcãs, incluindo a Áustria, a República Checa, a Alemanha e os Países Baixos.

A heroína também pode chegar à Turquia através de várias rotas. Nos últimos anos, parece ter-se desenvolvido uma ramificação da rota dos Balcãs que passa pelo Iraque antes de entrar na Turquia, quer diretamente, quer através da Síria. Contudo, é provável que parte da heroína que entra no Iraque se destine ao mercado de consumo interno ou esteja em trânsito para outros destinos no Médio Oriente ou na Península Arábica. Note-se que o Iraque também é utilizado como país de trânsito ou de destino para as remessas de anidrido acético, uma substância química essencial para a produção de heroína (ver infra). Por exemplo, em julho de 2014 foi apreendida uma remessa de 2 200 litros de anidrido acético expedida de Espanha com destino ao Iraque (INCB, 2015).

Outra ramificação da rota dos Balcãs passa pelo Irão e, possivelmente, por países da Ásia Central como o Turquemenistão, por via terrestre ou atravessando o Mar Cáspio, até aos países do Cáucaso (Arménia, Azerbaijão e Geórgia), entrando depois na Turquia por terra ou através do Mar Negro. A partir da Turquia, a heroína pode ser transportada para o ocidente, entrando na UE, por uma das ramificações tradicionais da rota dos Balcãs, ou ser expedida para norte num dos ferry-boats que fazem a travessia do Mar Negro entre a Turquia e a Ucrânia ou a Moldávia (ver observações sobre a rota do Cáucaso, infra).

O método de transporte tradicional na rota dos Balcãs consistia em dissimular as remessas de heroína em camiões, autocarros e automóveis. Embora estes métodos ainda sejam utilizados, afigura-se existir uma tendência recente para ocultar as remessas de heroína em contentores de navios. O tráfico de heroína para a Europa em contentores marítimos está principalmente ligada ao Paquistão e à rota meridional (ver infra), mas o recurso acrescido a contentores, sobretudo através dos portos turcos, poderá ajudar a explicar o aumento das apreensões muito elevadas de heroína na Turquia e noutros pontos da rota dos Balcãs.

Embora esta rota seja mais conhecida pelo tráfico de heroína para a Europa, também existe uma rota dos Balcãs «em sentido contrário» em que o anidrido acético é a principal substância traficada, por vezes em troca da heroína. As informações obtidas pela Europol sugerem que grupos de criminalidade organizada localizados em pontos estratégicos entre a Europa e o Afeganistão há muito que «facilitam» o tráfico de grandes remessas de anidrido acético. Geralmente, esta substância precursora é desviada para fora da UE, apesar dos rigorosos mecanismos de controlo. Os grupos de criminalidade organizada utilizam as suas próprias empresas legais ou infiltram-se em empresas existentes para encomendar anidrido acético a empresas registadas na UE.

2. A rota meridional

Nos últimos anos, a atenção da comunidade internacional foi atraída pelas grandes remessas de heroína expedidas de portos do Irão e do Paquistão, no Golfo de Oman e no Golfo Pérsico, em especial da chamada «Costa de Makran» na Província do Baloquistão. Parte desta heroína destina-se à Europa. Esta «rota meridional» para a Europa envolve vários modos de transporte e pontos de transbordo, que podem combinar-se de diversas formas.

Inicialmente, as remessas de heroína saem de terminais de contentores iranianos ou paquistaneses e de portos de pesca situados na Costa de Makran, dissimuladas em contentores comerciais transportados em navios de carga ou em embarcações locais denominadas «dhows». Os dados das apreensões indicam que o peso de cada remessa de heroína traficada pode variar entre 20 e 500 kg, sendo ocasionalmente detetadas remessas de cerca de uma tonelada. O grau de pureza da heroína parece ser relativamente elevado, segundo os dados divulgados pela Combined Maritime Forces (CMF), uma task-force naval multinacional liderada pelos EUA e sediada no Barém. As buscas efetuadas pela CMF entre 2012 e março de 2014 detetaram 15 remessas de heroína, num total de 4,1 toneladas, incluindo 1 tonelada apreendida ao largo da costa da Somália em 2014. Nesta rota também são traficadas outras drogas, como a resina de cannabis e algumas drogas sintéticas, sobretudo metanfetamina, mas provavelmente não são maioritariamente destinadas à Europa, 2014b, 2014d; CMF, 2014).

A heroína expedida desta forma tem como destino os países da Península Arábica e da África Oriental, mas uma parte poderá seguir mais para norte, pelo Mar Vermelho, e chegar ao Egito. Alguma desta heroína abastece mercados de consumo locais, na África e no Médio Oriente, que parecem estar a crescer (UNODC, 2014a). O tráfico de heroína também parece estar a desestabilizar a África Oriental, uma vez que os lucros desse tráfico servem alegadamente para financiar os grupos armados da zona. No entanto, as quantidades que prosseguem caminho rumo a outros destinos, incluindo a Europa, afiguram-se cada vez mais significativas e crescentes. As remessas de heroína podem ser divididas em lotes mais pequenos e enviadas para a Europa por via aérea, quer diretamente, quer através da África Austral e Oriental. Alternativamente, algumas delas são traficadas para a África do Sul, sobretudo por via marítima, mas também por terra (comboio), antes de serem reexpedidas para a Europa.

As organizações criminosas de vários países europeus, nomeadamente dos Países Baixos, do Reino Unido e da Irlanda, há algum tempo que utilizam a África do Sul como ponto de partida e de transbordo para as remessas de droga. Recentemente, os traficantes turcos deslocalizaram-se para a África do Sul ou viajam para a região, onde servem de intermediários no fornecimento de heroína à UE a partir do Paquistão, através da África Austral. Na rota meridional operam ainda outras organizações criminosas, como os grupos de criminalidade organizada da África Ocidental, sobretudo nigerianos, e da África Oriental, bem como do Paquistão.

Alguma heroína é traficada em contentores que saem da Costa de Makran diretamente para a Europa, ou atravessam a Península Arábica e a África Oriental, Austral ou Ocidental, com destaque para a Nigéria. Os dados das apreensões sugerem que os principais destinos da droga são os portos da Bélgica, dos Países Baixos e do Reino Unido, embora ela também possa ser distribuída para os países vizinhos, onde, nos últimos anos, têm sido apreendidas grandes quantidades de heroína em contentores marítimos (e ocasionalmente na carga transportada por via aérea) (UNODC, 2014d). Contudo, as grandes remessas de heroína transportadas por via marítima também podem ter como destino o sul da Europa; por exemplo, em junho de 2014 foi apreendida uma remessa recorde de 2 toneladas de heroína próximo de Atenas (Hellenic Coast Guard, 2014).

A rota meridional também pode envolver o transporte de quantidades mais pequenas de heroína, por correios aéreos, dissimuladas na carga ou em encomendas postais, do Paquistão diretamente para a Europa, em especial para o Reino Unido. Essas remessas também podem transitar por aeroportos da África Ocidental e Oriental. A heroína é traficada por via aérea e em pacotes postais entre o Paquistão e a Nigéria, sendo parte dela seguidamente enviada para a Europa. A Itália parece ser um destino importante para a heroína expedida por via aérea a partir da África Oriental, enquanto o tráfico aéreo que chega à França e à Bélgica provém principalmente de outras zonas de África.

3. A rota setentrional

A heroína traficada através da «rota setentrional» é exportada por via terrestre a partir das fronteiras setentrionais do Afeganistão e destina-se principalmente aos enormes mercados de consumo da Ásia Central, da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia. A maioria das remessas passam do Afeganistão para o Tajiquistão e são depois traficadas para norte, através do Quirguizistão ou do Usbequistão para o Cazaquistão, antes de entrarem na Rússia. O facto de estes quatro países da Ásia Central e a Rússia figurarem entre os 20 países que apreendem as maiores quantidades de heroína a nível mundial confirma o transporte de quantidades significativas deste opiáceo ao longo da rota setentrional (UNODC, 2014a). Uma pequena parte da heroína transportada através da rota setentrional pode entrar na UE através das suas fronteiras orientais, na Polónia e nos Países Bálticos. Por exemplo, segundo foi notificado, alguma da heroína apreendida na Ucrânia e na Bielorrússia, nos últimos anos, provinha da Ásia Central e destinava-se aos mercados da Europa Ocidental.

A fluidez das rotas e do modus operandi

A presente análise mostra que as chamadas «rotas de tráfico» são muito flexíveis e fluidas, tal como os métodos de transporte utilizados. Um exemplo disso é o surgimento de uma possível nova rota do Cáucaso. Nesta rota, os opiáceos produzidos no Crescente Dourado são traficados do Irão para a Turquia através da Arménia, do Azerbaijão e da Geórgia. Esta rota foi detetada devido a três grandes apreensões efetuadas em 2014: 850 kg de heroína apreendidos num camião na Arménia; a apreensão, na Geórgia, de 2 500 litros de uma mistura líquida invulgar que continha, entre outros ingredientes, 589 kg de heroína, aparentemente destinada à Moldávia, e 70 kg de heroína apreendidos no Azerbaijão. Estes casos sugerem que o Cáucaso está a ser utilizado para traficar grandes quantidades de opiáceos do Irão para a Turquia, através da Geórgia. Poderá tratar-se de mais uma ramificação da rota dos Balcãs que esteja a ser utilizada para evitar a fronteira entre o Irão e a Turquia, que é fortemente policiada. No entanto, é possível que uma parte dos opiáceos traficados através do Cáucaso se destinem quer aos lucrativos mercados da Europa Ocidental e da Escandinávia, quer ao grande mercado russo. A partir do Cáucaso, existem muitas ligações possíveis a estes mercados de consumo, tanto por via terrestre como através do Mar Negro. Por exemplo, qualquer deles poderia ter sido o destino final de uma remessa de 83 kg de heroína dissimulada num camião que se dirigia da Geórgia para a Letónia e que foi apreendida, em março de 2013, pelas autoridades aduaneiras da Bielorrússia, na fronteira com a Lituânia.

Conclusão: fatores que influenciam as rotas de tráfico

As rotas de tráfico ligam as regiões de produção de droga aos mercados onde é consumida e podem variar ao longo do tempo devido a uma série de fatores. Três fatores parecem ser particularmente importantes. Em primeiro lugar, a instabilidade e os conflitos armados podem impelir os traficantes a evitarem zonas ou países específicos e a procurarem rotas alternativas, se o conflito for de molde a não lhes permitir garantir a segurança das remessas de droga. Inversamente, porém, as zonas de conflito podem atrair os fluxos de droga porque são frequentemente palco de uma suspensão do Estado de direito e da emergência de poderes locais ou regionais (p.ex., «senhores da guerra») cujo controlo de locais estratégicos como os portos e os pontos de passagem de fronteira pode ser «arrendado» aos traficantes de droga. Um aspeto importante é a necessidade de financiamento gerada pelos conflitos armados, principalmente para comprar armas, podendo o tráfico de droga tornar-se uma fonte de financiamento para uma ou várias fações. Por último, é frequente os combatentes consumirem drogas devido aos seus efeitos estimulantes, para se manterem acordados por longos períodos, ou para aliviarem a dor. É disto exemplo a zona etnolinguística do Baloquistão, cuja instabilidade se deve a uma mescla de fatores, nomeadamente uma governação débil e as atividades de grupos armados como os radicais islâmicos e outros, agravadas pelas atividades de produção e tráfico de droga e pelas operações policiais que visam combatê-las. O sul do Afeganistão, onde a maior parte do ópio/heroína é produzida, faz parte do Baloquistão, que também abrange uma parte do Paquistão e do Irão, através dos quais são traficadas grandes quantidades de opiáceos. Também em África há muitas zonas de instabilidade ou de governação débil, que a criminalidade organizada pode explorar para tráfico de droga (Schuberth, 2014).

Em segundo lugar, a alteração das atividades e da localização das autoridades de aplicação da lei, ou a introdução de novos equipamentos (p.ex., scanners) ou metodologias (p.ex., revista de todos os passageiros e bagagens em determinados voos ou navios) podem levar os traficantes a alterarem as rotas ou o modus operandi, se a taxa de apreensões for demasiado alta para o seu negócio ser rentável. Também é importante referir que a alteração da localização ou das metodologias das autoridades de aplicação da lei pode levar à «descoberta» de rotas de tráfico já existentes há algum tempo. Na verdade, a identificação das rotas de tráfico de droga depende grandemente das ações das autoridades de aplicação da lei, em especial dos casos de apreensão de drogas em que é possível identificar a origem e o destino das mesmas.

Em terceiro lugar, a globalização conferiu maior rapidez à ligação e ao transporte entre as zonas de produção e os mercados de consumo de droga. A recente evolução, a nível internacional, das infraestruturas de transporte, dos serviços de correio rápido e do transporte marítimo de mercadorias em contentores criou novas oportunidades para os traficantes dissimularem remessas de droga e dificultarem os esforços policiais para as apreenderem.

2. Interativo: principais rotas de tráfico para a Europa

Por enquanto, o conteúdo seguinte só está disponível em inglês.

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3. Factos e figuras — a heroína na Europa em síntese

Notas:

Todos os dados são referentes a 2013.

(1) Estimativa da amplitude do problema de consumo de opiáceos (principalmente de heroína) na UE e Noruega.

(2)Há informações disponíveis sobre o início de tratamento especializado por 436 000 consumidores de droga na Europa (UE, Noruega e Turquia). A cobertura das unidades de tratamento pode variar de país para país.

(3)Os opiáceos, isoladamente ou combinados com outras drogas, estão presentes em 8 de cada 10 (79 %) mortes induzidas pela droga (overdoses) na Europa.

(4) ) Os valores relativos a 2013 devem ser considerados como estimativas; quando não havia dados de 2013 disponíveis, foram utilizados dados de 2012, em seu lugar, para calcular os totais a nível europeu. Os dados incluem todos os tipos de heroína apreendidos, exceto heroína líquida.

(5) IQR: amplitude interquartis, ou amplitude da metade central dos dados comunicados. 

Fonte: EMCDDA/Rede de pontos focais Reitox, EMCDDA (2015b)

Consumo problemático de opiáceos (1) Número estimado
1,3 milhões
  Número (% de todos os utentes que iniciaram o tratamento da toxicodependência)
Tratamento da toxicodependência  (2) Todos os utentes que iniciaram o tratamento na UE 135 000 (35 %)
Todos os utentes que iniciaram o tratamento pela primeira vez na UE 20 000 (14 %)
Mortes induzidas pela droga (3) (todas as drogas) Número estimado
6 100
  Número (em % das infrações relacionadas com todas as drogas)
Infrações à legislação em matéria de droga relacionadas com a heroína Todas as infrações 60 000 (5 %)
Infrações por consumo/posse para consumo próprio de droga 37 800 (4 %)
Infrações por oferta de droga 17 000 (9 %)
 
Apreensões (4) Quantidade (toneladas) UE (UE, Noruega e Turquia) 5,6 (19,1)
Número 32 000 (39 000)
  Heroína castanha (forma de base)
Preço médio de venda a retalho (EUR por grama) Intervalo (IQR) (5) 25–158 (33–58)
Pureza média (%) Intervalo (IQR) (5) 6–75 (13–23)

4. O desenvolvimento da produção de morfina no Crescente Dourado

opium poppy

Desde o início da década de 2000, têm sido apreendidas anualmente várias toneladas de ópio e de morfina ilícita no Afeganistão, no Paquistão e no Irão (EMCDDA e Europol, 2013). Nos anos de 2010 a 2012, foram apreendidas cerca de 111 toneladas de morfina ilícita no Afeganistão, 22 toneladas no Irão e 12 toneladas no Paquistão. Durante os mesmos três anos, as apreensões de ópio ascenderam, no total, a 231 toneladas no Afeganistão, 1 160 toneladas no Irão e 73 toneladas no Paquistão (ver Figura 2).

Estes dados confirmam que parte do ópio produzido no Afeganistão não é transformada em heroína nesse país e que existem mercados para o ópio e a morfina fora do Afeganistão. Embora se consumam quantidades bastante elevadas de ópio no Irão e no Paquistão, onde existem mercados para essa droga, é provável que uma parte seja utilizada, juntamente com a morfina, no fabrico de produtos opiáceos. Podem formular-se várias hipóteses.

 

Fonte: UNODC, 2014a.

Uma parte do ópio e da morfina é utilizada para produzir heroína no Paquistão e no Irão, e talvez noutros países, incluindo nos países europeus. Por exemplo, no final de 2013 e início de 2014 foram desmanteladas em Espanha duas instalações de transformação de morfina.

Outra parte é utilizada no fabrico lícito ou ilícito de medicamentos, incluindo morfina injetável e xaropes à base de codeína, no Paquistão e no Irão, sendo provável que grandes quantidades destes produtos sejam vendidas nesses países. Por exemplo, há muitas farmácias e lojas não regulamentadas no Paquistão, onde é possível comprar drogas controladas, incluindo morfina, sem receita médica (UNODC, 2013). Estes produtos também poderão ser exportados para países vizinhos.

Referências

heroinRoutesCharts.js
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highcharts.js
Carregue o documento anexo em JS Formato
Opioid trafficking routes_POD2015.pdf
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Page last updated: Friday, 25 November 2016